Vocação de S.Paulo

Vocação de um violento perseguidor de cristãos

1. Bento XVI anunciou um «especial ano jubilar» dedicado a São Paulo, por

ocasião dos 2000 anos do seu nascimento, que terá início no dia 28 de Junho. Antes deste anúncio oficial, dizia ele: «Como nas origens, também hoje Cristo precisa de apóstolos prontos a sacrificar-se a si mes­mos. Precis

a de testemunhas e de mártires como São Paulo: outrora violento perseguidor dos cristãos, quando no caminho de Damasco caiu no chão fulgurado pela luz di­vina, passou sem hesitação para o lado do Crucificado e seguiu-O sem titubear. Viveu e trabalhou por Cristo; por Ele sofreu e mor­reu. Como é actual, hoje, o seu exemplo!». A exemplaridade é de tal forma paradigmática para o processo de discernimento vo­cacional em idade adulta, que nos propomos explorar a narra­tiva da sua vocação, presente em Act 9,1-30, revisitando o seu próprio relato, nos discursos que faz aos judeus de Jerusalém (Act 22,1-21) e perante o rei Agripa (26,1-23), e ainda outras passa­gens das suas cartas e de outros livros da Escritura. Que a alegria da festa litúrgica da sua conversão, celebrada no dia 25 de Janei­ro, fecunde a reflexão.

2. Saulo é um verdadeiro judeu. Nasce em Tarso da Cilícia, onde cresce e se forma «aos pés de Ga­maliel». Reconhece as suas raízes, a terra e a escola. Não esquece o nome do seu mestre. Assume que possui sólida instrução, «segundo a exactidão da lei de nossos ante­passados, sendo zeloso para com Deus», como afirma (22,3). Quan­to ao particular zelo pelo judaísmo e suas tradições, orgulha-se inclu­sive de não ficar atrás de nenhum dos coetâneos (cf. Gal 1,14). Assim movido por convicções profundas, solicita cartas ao sumo-sacerdote, que tinha jurisdição sobre as comu­nidades judaicas, a fim de prender os seguidores do Caminho. Ele mes­mo o confessa, sem subterfúgios (cf. 22,4-5). Não esconde o passado violento; aliás, é por muitos conhe­cido.

Dirige-se para Damasco com cartas de recomendação. Os discípulos do Senhor deveriam temê-lo, pois respira ameaças de morte con­tra eles. Não esqueçamos que ele consente na morte de Estêvão (cf. 8,1). Efectivamente, deseja prender todos os seguidores do Caminho, homens e mulheres, e, se possível, trazê-los algemados para Jerusalém, a fim de serem punidos.

3. O plano sofre subitamente um grande imprevisto. Nada o fazia prever. 0 Senhor intervém quando Saulo menos pensa. Tudo aconte­ce enquanto fazia caminho. Já pró­ximo de Damasco, «uma luz vinda do céu o envolveu de claridade» (9,3). Era «por volta do meio-dia» (22,6), quando o sol está no pico. É a hora que assinala o centro do dia, a passagem entre a manhã e a tarde. Resta outro tanto tempo para terminar a jornada. Aprisionado no anel luminoso, Saulo vê-se diminuído nos sentidos e nos membros. Os olhos, embora abertos, nada vêem. As pernas, que o levam longe, não Ihe permitem estar de pé. Por inacreditável que pareça, Saulo não se sustenta a si mesmo. E, encandeado pela glória de Deus como Ezequiel (cf. Ez 1,27-28), cai por terra.

Na terra chã, Saulo abdica da sua altura, perde a altivez. Cola-se ao pó de que é formado. O Senhor es­pera por esta atitude para Ihe dirigir a palavra. Por isso não lhe cerra os ouvidos. Começa por chamá-lo pelo nome, de forma insistente: «Saulo, Saulo» (9,4). Fá-lo de forma perso­nalizada. E logo acrescenta: «por que me persegues?» (9,4). Como salienta na conclusão do discurso apostólico, sente-se perseguido nos seus discípulos (cf. Mt 10,40s).

Saulo pergunta de imediato: «Quem és, Senhor?» (9,5). O princípio da vocação alicerça-se no co­nhecimento do Senhor. E, para O co­nhecer, é preciso dialogar com Ele: entre um ‘Eu’ e um ‘tu’. Mesmo em circunstâncias dramáticas. Mais do que por discursos cristológicos ela­borados, a sua identidade revela-se pela sua boca: «Eu sou Jesus» (9,5). E só O conhece quem for capaz de compreender o mistério do seu cor­po místico. De facto, Saulo passa a reconhecê-Lo nos irmãos, porque o Senhor lhe repete: «a quem tu es­tás perseguindo» (9,5).

4. O progresso no conhecimento do Senhor não se faz na prostração. Compreende-se pois que Ele diga a Saulo: «Levanta-te» (9,6). Im­perativo frequente nos seus lábios, Ele o diz aos prostrados que cura (cf. p.e. Mt 9,5; Mc 2,9; Lc 5,23; Jo 5,8). Não está concluído o caminho. Saulo precisa de entrar na cidade. No meio da humanidade o Senhor revela-se por completo. A sua intenção de não prescindir da mediação dos homens é manifesta. Há-de ser dito por outros o que convém que ele faça. Saulo não se lamenta nem abre a boca; aceita as condições e obedece.

As mediações são várias e ser­vem para lhe transmitir o que deve fazer e para o introduzir na cidade. Deste modo, depois de ter obedeci­do ao Senhor, erguendo-se do chão, deixa-se levar «pela mão» (9,8). Que ironia a sua, depois de tanto empenho em algemar as mãos dos outros! Perde por completo o poder de iniciativa. Está cego. Curiosos condutores são os seus: ao contrário do seu relato (cf. 22,9) na narrativa (cf. 9,7), os companheiros de via­gem também estão dominados por certa cegueira, pois ouvem a voz, mas sem verem ninguém. Embora as versões não sejam coincidentes neste particular, ambas referem que eles não têm palavras para o suce­dido. É um sinal de que, por vezes, nem os amigos compreendem o que se passa entre si. De notar, toda­via, que eles colaboram com Saulo e, sem o saberem, no plano do Senhor. Os amigos são assim: aju­dam-se sem decantar, pela palavra, todas as situações aparentemente incompreensíveis. «Emudecidos de espanto» (9,7), conduzem um cego, Saulo.

5. A cegueira dura três dias. Durante este período Saulo não come nem bebe. De certa for­ma, passa por uma experiência de morte. Três dias e três noites permanece Jonas na boca do pei­xe (cf. Jon 2,1). É o tempo necessário para se converter à vontade de Deus. Também Cristo esteve no seio da terra três dias (cf. Mt 12,40); e depois, pelo Espírito de seu Pai, ressuscita.

Entretanto, Ananias é inter­pelado pelo Senhor numa visão. Chamado pelo seu nome, respon­de prontamente, como é próprio de um discípulo: «Eis-me aqui, Senhor!» (9,10). O Senhor dá-lhe então a seguinte ordem: «Levan­ta-te, vai pela rua chamada Direita e procura, na casa de Judas, por alguém de nome Saulo, de Tarso» (9,11). Por que é que o Senhor não orienta Saulo para a casa de Ananias? Ter-se-ia poupado o tem­po desta diligência, dirá alguém. Sem dúvida, mas neste proces­so o Senhor promove a pedago­gia da convergência de caminhos e de procuras. A ordem é dada a Ananias com o mesmo imperativo que, três dias antes, o Senhor diri­giu a Saulo: «Levanta-te» (9,11). Depois disso, tem ainda de o pro­curar. Apesar do incómodo, deve mostrar-se agradecido por lhe in­dicar a rua e a casa, e lhe dizer o nome e o apelido do homem.

Saulo encontra-se em oração na casa de Judas. Faz a experi­ência de morte em clima de pro­funda oração. E, orando, tem uma visão: Ananias entra e, impondo as mãos, recobra a vista. Há nes­te ponto um elemento importan­te a reter: quando Saulo reza, o Senhor antecipa-lhe o que vai su­ceder. Significa isto que o discer­nimento vocacional se deve fazer através da oração. No diálogo com o Senhor, cada um pode ‘ver’ o desígnio divino a seu respeito. Mais: Ele comunica-o àqueles que depu­tou para irem ao seu encontro. As duas revelações paralelas, a Paulo e a Ananias, são a modalidade que o Senhor encontra para o dizer.

6. Apesar da ordem que Deus comunica através da visão, Ananias coloca resistências. Por que resiste ele? Porque ouviu dizer de muitos que Saulo molestou os Santos de Jerusalém e procura prender os de Damasco. Para isso tem inclusive autorização dos chefes dos sacer­dotes. Saulo não possui boa fama nem inspira confiança. Ignoramos se Ananias faz a triagem das informações recebidas. Contudo, é sempre necessário ter atitude crítica e selectiva a propósito do que se ouve dizer. Por se dar ouvidos a tudo e a todos podem ser come­tidas injustiças. Certo é que todos os dados que ele menciona corres­pondem à verdade. Talvez por isso pense ter motivos mais do que su­ficientes para resistir ao mandato do Senhor.

7. Mas o Senhor não é fácil de convencer. Ananias resiste, o Se­nhor insiste. E, segundo o texto, diz-lhe: «Vai, porque este homem é para mim um instrumento de escolha para levar o meu nome diante das nações pagãs, dos reis, e dos filhos de Israel. Eu mesmo lhe mostrarei quanto lhe é preci­so sofrer em favor do meu nome» (9,15-16). Por outras palavras, o Senhor esclarece-o sobre a inicia­tiva na eleição dos seus colabora­dores. Ele mesmo é quem esco­lhe, e não Ananias ou quaisquer dos discípulos, por mais informa­dos que estejam quanto à sua ido­neidade.

Alem de escolher, o Senhor designa a missão de Saulo. No fundo, ele é enviado a «todos os homens» (22,15), ainda que se reconheça como ‘predestinado’ a evangelizar as «nações gentias» (26,17). É um facto que, por di­versas vezes, reconhece nas suas cartas (cf. Rom 1,5; 11, 13; 15, 16-18; Gal, 16; 2,2.8.9; Ef 3,8; Col 1,27; 1 Tim 2,7). Seria bom que ninguém tivesse a pretensão de se substituir nesta matéria: eleição e missão cabem ao Senhor determi­nar.

Por fim, o Senhor sugere que nenhum dos discípulos deveria fa­zer sofrer Saulo. Ele reserva para Si este capítulo. Com isto não quer assumir a figura de carrasco. Tão­ pouco deseja vingar-se dos males com que atormentou e perseguiu os seus Santos, como lhe repete várias vezes. A vingança não faz parte da sua justiça. Na verdade, Ele só quer que Saulo se sinta como todos os escolhidos, que sofrem violência e completam a sua Paixão. E ele sabe de que sofrimento se poderá tratar, pois foi por algum tempo agressor. Mas não é por isso que tem de so­frer mais.

8. Ultrapassadas as resistências naturais, Ananias procede como o Senhor lhe ordenara: parte, en­tra na casa e impõe as mãos sobre Saulo, a quem trata por «irmão» (9,17). E diz-Ihe que vem da par­te do Senhor, para que ele recupere a vista e, segundo a típica expres­são lucana, fique «cheio do Espírito Santo» (9,17; cf. Act 2,4; 4,8.31; 7,55, 13,9; Lc 1,15.41.67). Imedia­tamente recobra a vista, pois dos olhos lhe cai algo parecido a «esca­mas» (9,18). O mesmo sucedera ao pai de Tobias, a quem as escamas impediam de ver (cf. Tob 11,11-13). Saulo levanta-se então e é bapti­zado. De novo iluminado, não cai; pelo contrário, passa a ver e perma­nece de pé. Alimenta-se e sente-se reconfortado. Esta é a sequência do processo das ressurreições. Assim ressuscita a filha de Jairo: volta o espírito à menina, ela põe-se de pé e logo é alimentada por indicação do Senhor (cf. Lc 8-54-55). Saulo ressuscita através de uma verdadei­ra iniciação: na infusão do Espírito Santo, no lavacro do baptismo e no alimento que fortalece.

9. Após esta experiência iniciá­tica, Saulo podia partir para a mis­são, mas não o faz. De facto, entende que deve permanecer por alguns dias em Damasco na companhia dos discípulos. Quer estar com eles não só para lhes agradecer a sua ‘res­surreição’, mas sobretudo porque deseja aprender algo mais sobre o Senhor. Depois, sim, começa «a proclamar Jesus, afirmando que ele é o Filho de Deus» (9,20). E fazia-­o de forma tão intrépida que todos estavam estupefactos. Dispensan­do, contudo, todo o tipo de elogio, ele «crescia mais e mais em poder e confundia os judeus» (9,22), in­clusive os apóstolos que, de início, mantinham sérias reservas, depois ultrapassadas graças à intervenção de Barnabé.

Mas, apenas inaugurado o mi­nistério da pregação, Saulo começa a perceber quanto tinha de sofrer pelo nome de Jesus, da parte de certos discípulos, dos judeus e dos helenistas que projectavam dar-lhe a morte. Avisado, porém, ora pelos colaboradores mais próximos, ora pelo próprio Senhor, vai adiando o que acabaria por suceder mais tarde em Roma. Entretanto, de volta a Je­rusalém, o Senhor diz-lhe numa vi­são: «Vai, porque é para os gentios, para longe que eu quero enviar-te» (22,21). E, no discurso perante o rei Agripa, acrescenta que Ele lhe disse: «Eu te livrarei do povo e das nações gentias, às quais te envio para lhes abrires os olhos e assim se converterem das trevas à luz» (26,17-18). Em síntese, Saulo tudo faz por retirar as escamas dos olhos dos gentios, para que, recuperada a visão, possam como ele aderir à luz do Senhor.

10. A terminar, formulamos a pergunta que muitos colocam: Se Deus separou Saulo antes de nascer (cf. Gal 1,15), por que lhe aprouve revelar o seu Filho e chamá-lo só na idade adulta?

Questões como esta abrem-se a múltiplas respostas. Todavia, não deverá ter sido por distracção ou esquecimento. Porque Deus nunca nos esquece e a todos se revela no tempo mais oportuno.

P.e Joaquim Félix, in “Voz de Esperança” Dezembro-Janeiro 2008

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