Imaginário

O caminho faz-se de muitos passos. O maior Caminheiro caiu do cavalo mas conseguiu re-erguer-se e, com uma nova visão, começou a ver quanto antes apenas olhava. E viu um Reino de Deus na Terra. Onde os homens buscam a felicidade na construção da felicidade dos outros.

Paulo caminhou por milhares de léguas e milhas, por terra e por mar. Cansou-se. Foi preso. Açoitado. Flagelado. Apedrejado. Naufragou. Sofreu perigos no mar, nos rios, nas cidades, no deserto, dos ladrões, dos pagãos, dos falsos irmãos. Passou fome. Teve sede. Sentiu o frio. Faltou-lhe tempo de sono e de descanso.

Refundou comunidades em Corinto e em Roma no amor fraterno de Cristo. Escreveu-lhes e incitou-os à partilha, ao amor, à caridade e ao cuidado atento de todas as obras de Deus: o homem e a mulher, a natureza.

Tendo apelado a César após ter sido acusado por cidadãos judeus que o repreenderam por celebrar o Pentecostes a Jerusalém, Paulo é encaminhado para Roma.

Uma vez aqui, Paulo é colocado em prisão domiciliária durante dois anos, recebendo quem o quisesse visitar e continuando a pregar a palavra de Cristo através das cartas do cativeiro. Em casa, Paulo escreve cartas aos Efésios, Filipenses, Colossenses e a Filémon. Estas cartas irão constituir o Livro Sagrado.

As cartas demoram bastante tempo a chegar ao seu destino e em muitos casos, as notícias sobre Paulo chegam mesmo mais cedo do que as suas cartas. O correio demora por vezes meses. Não há email.

Por outro lado, são muitos os leitores das cartas. Muitos para além dos originais destinatários. Quando as cartas chegam ao destino, são já muitos os leitores imprevistos que as divulgam. O Cristianismo começa a espalhar-se e são já muitas as comunidades que vivem a mensagem de amor de Cristo.

Em Roma, uma ameaça começa a abater-se sobre o Império. Essa seita que se espalha como uma praga começa a criar problemas de gestão do estilo de vida romano. Principalmente nas finanças do Reino começam a ficar afectadas. As oferendas aos deuses começam a reduzir-se consideravelmente.

O império Romano, liderado sucessivamente por Augustus, Tiberius, Caligula, Claudius, Nero, Galba e Otho, movido pela necessidade de travar o avanço do Cristianismo, tenta um derradeiro esforço: apoderar-se das cartas e assim impedir que elas cheguem ao seu destino e floresçam em novos aderentes nesta fé fracturante. Nero garante o martírio de Paulo, por volta do ano 67. O problema são as cartas que estão espalhadas pelo império.

As cartas começam a fragmentar-se e a disseminar-se por todo o império. A Palavra Sagrada é assim dispersa em bocados que urge reunir num todo uno.

Temos assim 2 povos com o mesmo propósito baseado em objectivos diferentes: tanto os Cristãos como os Romanos pretendem apoderar-se das cartas, uns para as viverem e espalharem assim a fé em Cristo, outros para impedir o seu avanço e aniquilar essa fé. A busca da Palavra Sagrada é assim o objectivo último dos dois povos.

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